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Leviatã, que bicho é esse?

Quem frequenta uma igreja pentecostal a mais de cinco anos, provavelmente já escutou o jargão: “Porque na presença de Deus até a tristeza salta de alegria”. Quando ouvi a primeira vez esse versículo, achei-o lindo e poético. Quando o culto acabou perguntei ao pregador o endereço dessa passagem bíblica, ele me disse que estava no livro de Jó, mas não lembrava exatamente onde. Como sou daqueles que não aguentam ficar com dúvidas, fui pesquisar. Cheguei no capítulo 41 versículo 22:
“No seu pescoço reside a força; diante dele até a tristeza salta de prazer.”- ACF
“No seu pescoço reside a força; e diante dele anda saltando o terror.” – NVI[1]
Uma rápida olhada no contexto do versículo em questão nos revela algo interessante: Não é na presença de Deus que a tristeza salta de alegria/prazer, mas do Leviatã/monstro marinho/(crocodilo?). No poema anterior, também aparece um animal, o Beemot, onde as descrições apontam hiperbolicamente para um hipopótamo.[2]

No terceiro poema que compõem o segundo discurso de Javé a Jó é que encontramos essa figura, o Leviatã. Tanto na descrição do Beemot como na do Leviatã, aparecem características que vão além do reino animal, nos levando a crer que a intenção do autor ao colocar esses dois seres nos discursos de Javé é apontar para outra realidade, pois no discurso anterior Javé já havia se revelado como Senhor dos animais.
Nessa teofania Javé está mostrando a Jó que é Senhor sobre todas as coisas, inclusive desses dois monstros, que aqui provavelmente simbolizam as forças do mal. Nas palavras de Ternay:
“Quanto mais progredimos na leitura dess3 poema mais se torna evidente que o monstro não é um simples crocodilo. O Leviatã é descrito aqui com feições que supõem uma mitologia lírica do mal cósmico, o que permite ao autor utilizar esta figura como um símbolo das forças do mal atuando na história, presente na humanidade”.[3] 
Deus se revela pra Jó como o Senhor de todas as coisas, até mesmo das forças caóticas do mal, aqui representada pelo Leviatã, que na está mitologia cananéia como Lotã, um monstro das profundezas, de sete cabeças.[4] O autor está usando figuras míticas dos povos de entorno e as usando para mostrar a soberania de Javé sobre todas elas. Isso inclusive é uma processo de desmitologização, pois ao afirmar a soberania de Javé, ele desbanca a essência desses mitos, visto só o Senhor ser Deus, o resto é tudo criatura.
Bem, muitas outra coisas poderiam ser escritas, mas como é só uma rápida analisada, vamos parando por aqui. O que fica claro é que esse versículo é erroneamente utilizado pelos pregadores que dele se apropriam, pois em nenhum momento Leviatã é sinônimo de Javé, pelo contrário, é hostil a Ele.
Bem, da próxima vez que ouvirem o jargão, orientem o pregador a ler o capítulo inteiro.
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[1] Bíblia de Jerusalém – Em seu pescoço reside a força, diante dele corre o pavor. Bíblia do Peregrino – Em seu pescoço se assenta a força, diante dele dança o terror.
[2] SCHÖKEL, Luís Alonso. Bíblia do Peregrino. 2 ed. São Paulo: Paulus, 2006. p. 1142.
[3] TERNAY, Henri de.  O livro de Jó: da provocação à conversão, um longo processo. Petrópolis: Vozes, 2001. p. 299-307.
[4] Comentário bíblico NVI. p. 752.

Fonte: Bibotalk

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