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GLORIOSO ASSOMBRO

Muitos anos antes de sua morte, um notável rabino, Abraham Joshua Heschel, sofreu um ataque do coração quase fatal. Seu melhor amigo estava do lado de seu leito. Heschel estava tão fraco que só conseguiu sussurrar:
- Sam, sou grato pela minha vida, por todos os momentos que vivi. Estou pronto para partir. Vi tantos milagres na minha vida.
O velho rabino ficou esgotado pelo seu esforço em falar. Depois de uma longa pausa ele disse:
- Sam, nunca na minha vida pedi a Deus sucesso, sabedoria, poder ou fama. Pedi assombro, e ele me concedeu.
Pedi assombro, e ele me concedeu. Um burguês sem imaginação irá cutucar o nariz diante de uma pintura de Claude Monet; uma pessoa cheia de assombro ficará ali em pé tentando segurar as lágrimas.
De modo geral, o mundo perdeu o senso de assombro. Crescemos. Já não perdemos o fôlego diante de um arco-íris ou do perfume de uma rosa, como acontecia antes. Ficamos maiores e todo o resto ficou menor, menos impressionante. Tornamo-nos apáticos, sofisticados e cheios de sabedoria do mundo. Não deslizamos mais os dedos sobre a água, não gritamos mais para as estrelas nem fazemos caretas para a lua. Água é H2O, as estrelas foram classificadas e a luz não é feita de queijo. Graças à televisão via satélite e aos aviões a jato, podemos visitar lugares que no passado eram acessíveis apenas para Colombo, Balboa e outros exploradores intrépidos.
Houve um tempo, não muito distante, em que uma tempestade fazia um homem adulto estremecer e sentir-se pequeno. Deus, no entanto, está sendo deixado de lado pelo mundo da ciência. Quanto mais sabemos sobre meteorologia, menos inclinados nos tornamos a orar durante uma tempestade. Os aviões voam agora acima, abaixo e entre elas. Os satélites reduzem-nas a fotografias. Que ignomínia – se é que uma tempestade pode experimentar a ignomínia – reduzida de teofania a mero incômodo.[…]
Não é de admirar que o rabino Heschel tenha concluído: “À medida que a civilização avança, o senso de assombro declina”.
Por Brennan Manning em “O evangelho maltrapilho”
Trecho extraído do capítulo 5 “Biguás e gaivotas”. Págs. 89 e 90. (Resumido)
Título adaptado.

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