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É sempre errado mentir?

Será que é possível mentir não ser um pecado? Botando de uma forma mais direta, será que Deus pode te colocar em uma posição em que pecar é a coisa certa a se fazer?
Essa questão é tão complicada quanto constante. E quase sempre vem junto de uma situação hipotética: digamos que você vive na Alemanha Nazista, há alguns judeus escondidos no sótão da sua casa, e os guardas da Gestapo batem na porta e perguntam se você está escondendo judeus. O que você faz? Você mente?
Deixe-me te dar minha conclusão, e então tentamos caminhar até lá juntos. Em primeiro lugar: DEUS ODEIA MENTIRA. Então, sim, é sempre um pecado mentir e, não, nunca é possível mentir sem pecar. Provérbios 12.21-22 nos explica o porquê:
Nenhum agravo sobrevirá ao justo, mas os perversos, o mal os apanhará em cheio. Os lábios mentirosos são abomináveis ao SENHOR, mas os que agem fielmente são o seu prazer.
Língua mentirosa está entre uma das sete coisas que Deus abomina (Provérbios 6.16-17). Cristãos são chamados a que seu sim seja sim, e mentir viola esse princípio básico (Tiago 5.12). E, enquanto Deus é um Deus de verdade (João 14.6-7), o diabo é o pai da mentira (João 8.44). Mentiras são afrontas à providência, pois implicam que o mundo seria melhor se Deus simplesmente agisse mais de acordo com nossas vontades. Assim, cada mentira é um ataque à soberania de Deus e essencialmente te coloca em oposição ao que é verdade. Ao invés de mentir, diga a verdade (Colossenses 3.9; Efésios 4.22-24).
É simples assim.

O problema filosófico

A questão de se é possível mentir surge de uma construção ética falha. Na ética cristã há basicamente duas correntes: a ética gradativa e a ética absoluta. A ética gradativa diz que há uma triagem nos mandamentos de Deus, e alguns são mais importantes que outros. Quando há uma contradição, sempre se atenha ao mais sério. Por exemplo, eles diriam que o seu dever para com os judeus escondidos no sótão é maior que os mandamentos contra mentir. Então é melhor mentir do que trair os refugiados.
Por outro lado, aqueles que afirmam a ética absoluta (como eu, Moisés e Jesus) dizem que todos os mandamentos de Deus são obrigatórios, e nunca é aceitável deixar qualquer um deles de lado. Deus não faz uma curva de gradação com seus mandamentos, então não deveríamos enxergá-los como tendo alguma ordem de importância.
Aqueles que afirmam a ética gradativa usam versículos como Marcos 12.30-31 (quando Jesus diz que amar ao Senhor teu Deus e amar seu próximo como a si mesmo são os dois maiores mandamentos) como evidência de que Deus eleva alguns de seus mandamentos acima de outros. Aqui, alguém que segue uma ética absoluta olha para Marcos 12 e diz que esses mandamentos são maiores porque todos os outros fluem deles – o que quer dizer que violar qualquer mandamento, de alguma forma, é uma ofensa a seu próximo ou a Deus, ou, mais provável, a ambos.
O simples problema da abordagem ética gradual é que isso não é ensinado na Bíblia – mesmo em passagens como a de Marcos 12. A primeira pessoa apedrejada até a morte no Antigo Testamento foi executada por carregar estacas no Sábado, o que, no mínimo, levanta algumas questões acerca do conceito de moralidade gradativa. Independente do debate entre ética absoluta vs gradual, as primeiras pessoas que Deus executa sumariamente no Novo Testamento são Ananias e Safira, por terem mentido ao Espírito Santo. A moral disso só pode ser: se você vai listar pecados segundo alguma ordem de seriedade, mentir deve estar bem perto do topo.

O problema hipotético

Mas isso nos leva de volta aos judeus escondidos no sótão. E aí? Bem, quando elaboramos dilemas éticos hipotéticos, devemos lembrar que hipóteses são literalmente problemáticas. Elas são complicadas precisamente porque expõe uma suposta fraqueza no argumento de alguém.
Se você vai jogar o jogo hipotético, lembre-se que Deus é soberano e, com isso, vem a promessa divina de que, para cada tentação, ele sempre provê um livramento (1 Coríntios 10.13), e essa saída NUNCA vai envolver pecar. Deus não abre uma porta de saída através de pecados. Na verdade, no contexto de 1 Coríntios 10, é exatamente do pecado que Deus quer te livrar.
Assim, em qualquer dilema moral hipotético, você precisa se lembrar que sempre há um contingente implícito – isso é, Deus sempre te dará um livramento que não envolve você pecar.

De volta aos guardas à porta

Voltando aos policiais batendo na porta e os judeus escondidos no sótão. As regras dizem que você não pode pecar, que mentir é pecado e que entregar pessoas à morte é falta de amor, o que quer dizer que também é pecado. O que resta fazer?
Bom, essa decisão, na verdade, foi tomada antes de esconder os judeus. Quando você deu abrigo a eles em sua casa, você o fez se tornando responsável pela segurança deles. Se você é valente o suficiente para escondê-los, então é melhor que seja valente o suficiente para protegê-los. Como você pode escondê-los mas não estar disposto a defendê-los fisicamente? Se os guardas batem na sua porta, responda dizendo que eles não tem o direito de entrar na sua casa, e o que eles estão fazendo é moralmente repreensível – mas que Jesus oferece perdão para os pecados deles, e que eles precisam se arrepender. Eles derrubam a porta, e aí a hipótese segue. A pessoa que é valente o suficiente para mentir mas não o suficiente para ser um mártir não é nem um pouco valente.

E sobre ética em tempos de guerra?

Por mais absolutista que isso soe, a Bíblia dá lugar em suas construções morais para ética de guerra. Deus usa países para levantar a espada e punir malfeitores. É esperado que guerras incluam dissimulações e violência. Um exército pode fingir ir para a esquerda e ir para a direita, porque estão levantando a espada para suprimir o mal. Mas isso é fundamentalmente diferente de uma pessoa – um civil, como queira – que mente porque tem uma agenda moral secreta. Mesmo que sua moralidade seja correta, ela é minada pela mentira porque (lembre-se) Deus nunca te põe em uma posição onde mentir é a coisa certa a se fazer.

E Raabe?

Nenhuma conversa sobre mentir estaria completa sem Raabe aparecer. “E Raabe?”, você pergunta. “Ela não mentiu? E aí?”. Bem, sim… mas isso está longe de ser o ponto da narrativa. Raabe tomou partido de Javé contra sua própria nação. Ela ouviu sobre as obras de Deus no deserto e, quando encontrou com os espias, foi claramente convertida pela fé, somente. Essa fé se manifestou imediatamente em sua devoção a Deus e ao povo (Tiago 2.25).
O ponto da narrativa de Raabe em Josué 2 é que uma prostituta idólatra foi radicalmente salva, e que Deus então usou-a para ajudar Israel a entrar na terra prometida. Ela mentiu? Sim. Ela era crente por não mais que dez minutos, então dê uma folga a ela. Ela está na galeria da fé de Hebreus 11? Sim. Por mais chocante que seja, há alguns crentes que foram tanto mentirosos quanto prostitutas (e há Sansão, que foi um mentiroso enquanto estava com uma prostituta). Ainda assim, o evangelho é maior que o pecado, e a salvação vem pela fé, somente. Raabe sempre é tida como um exemplo de fé por ter se aliado ao povo de Deus, e nunca um exemplo por ter mentido para a glória de Deus.
por Jesse Johnson
Traduzido por Filipe Schulz | iPródigo.com | Original aqui

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3 comentários:

Pr. Luiz Fernando disse...

Prezado colega Pr. Anselmo,
só para apimentar uma possível discussão colocaria uma pergunta. Creio firmemente que mentira é pecado, mas para desenvolver um possível debate ai vai: E se a verdade levar a morte de de alguém por alguma coisa banal? Por exemplo: Um estudante de teologia que morava em um seminário no interior do país, saiu com a filha de uma coronel da região. Isso acarretou a ira violenta de tal coronel, que foi ao seminário onde o jovem estudava e morava 23h e perguntou ao reitor: Tal fulano esta ai? O reitor vendo uma arma na cintura do coronel e seus capangas respondeu...? O que deveria ser feito? Dizer a verdade ou não?
Um forte abraço.
Em Cristo.
Pr. Luiz Fernando
MINISTÉRIO FORÇA PARA VIVER

Pr. Anselmo Melo disse...

Caríssimo colega Pr. Luiz
Eis aí uma metáfora instigante e desafiadora.
Em minha opinião acredito que a situação está mais para crer ou não que Deus poderia intervir na situação. De qualquer forma eu preferiria não estar na pele do tal reitor. Poderíamos dizer que o tal está em uma bela "saia justa".

Anônimo disse...

Provável solução:

Está sim Coronel. O meliante está escondido no quarto dos fundos... mas antes de mata-lo permita-me impor-lhe os "castigos" da instituição.

Expectativa
- Com o tempo o coronel esfria a cabeça e o aluno livra a dele setadinho em disciplina provavelmente na cidade natal num banco de igreja.

Agora a pergunta, em caso de desacordo com o Coronel e o seminarista fosse alvejado, eu seria cúmplice da morte e culpado perante Deus?

Creio q não.

Walber

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