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Um Místico Urbano


Tomás de Aquino (1225-1274) foi um homem interessante e intrigante. Apesar de ter nascido numa rica família, optou, em certo momento de sua vida, por ser um pobre frade. Por ter um corpo grande, desajeitado e lento, ganhou o apelido de boi burro. Quando seus colegas assim o chamavam, não poderiam imaginar estar diante daquele que seria considerado um dos teólogos mais geniais da história do cristianismo, cuja voz iria atravessar os tempos.
Imagine ter um Mac em um mundo dominado pelo PC (Windows)... Pois assim foi Aquino, um sistemático pensador aristotélico em um ambiente teológico imerso no platonismo. Ele foi um severo crítico do subjetivismo platônico, por entender que os teólogos influenciados por este pensamento caíam num transcendentalismo desconectado da realidade. Por isso, foi a mosca que pousou na sopa de tais teólogos místicos, influenciados por um pensar mais aberto ao sobrenatural. Fez sua teologia a partir do lado esquerdo do cérebro, de onde nascem os atributos da razão, e por ela buscou explicar Deus. Sua Suma Teológica tornou-se o primeiro tratado de teologia sistemática do Ocidente, uma tentativa de sintetizar em volumes os múltiplos e infindáveis tópicos teológicos.
Mas aqui reside um mistério: propositadamente, ele deixou sua Suma Teológica inacabada. Seu amigo Reginaldo ficou preocupado quando observou que Aquino parou de trabalhar na sua obra-prima. Instado a continuar, Aquino respondeu que não poderia mais escrever. Diante da insistência do amigo, o teólogo abre o coração e diz: ?Eu não posso mais escrever, porque tenho visto coisas que fazem todos os meus escritos serem como palhas? E assim foi. Aquino não mais escreveu depois de ter tido uma experiência mística com Deus durante uma celebração, que o fez baixar a pena em uma atitude de humilde adoração. No leito de morte, este grande filósofo e teólogo, pai da teologia natural e um dia antagonista da teologia mística, pede para ouvir a leitura bíblica do Cântico do Cânticos.
Afinal, qual foi a experiência mística que levou Aquino a considerar tudo quanto tinha escrito e que constitui um dos principais pilares da teologia ocidental como palha? Tentar descobrir é profanar com uma curiosidade racional a santidade de uma experiência única; mas reporto-me a esta experiência de Aquino porque ela mexe o meu mundo interior, despertando sonhos antigos. Pois eu tenho um sonho de me tornar um místico! Sim, eu gostaria de organizar a minha vida em torno do mistério de Deus.
A mística é considerada na tradição espiritual cristã uma ciência mais elevada, pois é uma forma de conhecer Deus como fruto da experiência com ele, e não do acúmulo de informações frias sobre a sua pessoa.
Equivocadamente, pensa-se que uma experiência mística é o eclipse da razão, um suicídio intelectual em nome do indescritível. Nada mais errôneo para com a mística cristã. Um místico não é um louco, ou alguém intelectualmente preguiçoso e limitado, mas alguém que crê por ter experimentado encontros com Deus não explicados puramente pela razão e nem totalmente descritos com palavras. É uma forma de conhecer a Deus no dizer de Teófilo, a sabedoria escondida e secreta de Deus, na qual, sem ruído de palavras e ajuda de algum sentido corporal nem espiritual, como no silêncio e quietude da noite, obscura a todos os sentidos naturais; ensina Deus a alma, no oculto e no secreto, sem que esta saiba como está sendo ensinada.
Eu tenho um sonho de influenciar uma geração de estudantes de teologia e de jovens pastores a se tornarem místicos. Queria poder dizer-lhes que os anos de estudo teológicos não podem seqüestrar sua devocionalidade. Gostaria de alertá-los de que a Igreja contemporânea tem uma necessidade urgente de místicos intelectualmente sólidos, teologicamente saudáveis, e não de oradores que produzem discursos dominicais vazios por não nascerem do encontro com o Deus vivo. Sonho poder inspirá-los a refundarem a mística protestante, deturpada pela onda neopentecostal. Sonho poder falar-lhes de liderança, não a partir de modelos puramente técnicos advindos do mundo corporativo, mas sim de uma liderança com base na mística capaz de fazer de homens e mulheres de Deus verdadeiros sábios espirituais.
Sobre isso, reproduzo o que recentemente alguém me contou. Um pastor famoso e cultuado, destes que exportam o seu estilo de vida e modelo ministerial, viajava ao lado de uma pessoa. Tão ocupado estava com o seu computador, fazendo freneticamente mil coisas, que sequer olhou para quem estava na outra poltrona. Foi então que a pessoa perguntou o que ele fazia; ante a resposta, o interlocutor fortuito questionou: Por que será que quando sento ao lado de um pastor, tenho sempre a impressão de estar com um homem de negócios, mas quando sento com um monge budista, parece que estou junto a um homem de Deus?
Eu tenho um sonho de libertar a palavra discipulado da prisão reducionista à qual nós a pusemos. O discípulo de Jesus é um místico que sobe o monte da transfiguração com ele e desce de novo para expulsar os demônios do vale. Fazer discípulos não é colocar pessoas na escola dominical, ensinando-as um corpo de doutrinas frias e dando-lhes um código de conduta moral pessoal sem qualquer conexão com o mundo dentro do qual se vive. Sonho em transformar minha igreja em um centro de formação espiritual, dentro da qual são gestados místicos preocupados com a transformação da sociedade. Então, tenho o sonho de ser um místico urbano. Não quero ir para o mosteiro, mas desejo trazer para minha realidade pós-moderna os maravilhosos princípios da espiritualidade monástica. Sonho viver aquilo que Bonheffer disse: Somente um novo monasticismo pode salvar a Igreja atual. Quero ser este novo monge, que usa celular, assiste televisão e comunica-se por e-mail, mas cultiva o silêncio e a contemplação no meio do barulhento inferno urbano.
Eduardo Rosa Pedreira

2 comentários:

Adriana Marques disse...

Oie,irmão, amado!!!
De verdade que fiquei pensando na posição do irmão com respeito ao texto postado.
Assim como todos eu tbm sonho!
Tem um hino que diz:Quero sonhar os sonhos de Deus.
E qual será os sonhos de Deus?
Deus almeja ver a imagem de seu filho em nós. Deus um dia sonhou com cada um de nós e nos trouxe a existência e hoje, nós em Cristo, com Cristo e por meio de Cristo, podemos mostrar a todos, sem força alguma e fazer como Paulo que com o Espírito,persuadia o Rei Agripa.(Passagem que eu acho imensamente , linda), a se tornar um seguidor do Senhor Jesus.
Mas como isso acontece?Só por meio da vida de Deus!
Pra Jesus ser gerado em alguém , tem que ter a participação do Espírito.
Nós+vida de Deus+O Espírito=pessoas sendo salvas, almas sendo libertas...
Eu, já não espero melhora alguma neste e pra este mundo, pois está escrito:Por aumentar a iniquidade, o amor de muitos a de se esfriar.
A iniquidade aumenta dia após dia e única coisa que podemos fazer é dar um jeito urgentemente de crescer em vida por meio da Vida e assim fazer com aqueles à quem o Senhor, escolher, se apegar ao Deus a quem nós servimos.

Irmão,graça e paz em sua vida!

"Quem pode pecados perdoar
E a iniquidade retirar?
Quem pode da cova redimir
E sarar feridas com amor?

Quem pode dar luz na escuridão
Ao aflito e triste coração?
Quem ao desvalido pode erguer
E fazer a estéril conceber, dar à luz?

Quem a morte e o Hades subjugou
E sobre o inimigo triunfou?
Quem nos trouxe graça, vida e luz?
Só pode ser um homem: é Jesus!
Deus forte e conselheiro Ele é;
Autor e Consumador da nossa fé, é Jesus.

Um abraço do tamanho dos braços de Cristo em ti!

Anselmo Melo disse...

Minha irmã. Obrigado por sua reflexão sobre o texto. Minha posição é de que devemos refletir e muito sobre o tema abordado. Infelizmente muitas vezes nos cercamos de tantas argumentações teológicas que nos esquecemos de que a obra de Cristo em nossas vidas é e precisa ser acima de tudo mística, sobrenatural. Muitas discussões no meio acadêmico teológico deveriam ser submetidas ao crivo do divino e espiritual, ou melhor, deixarmos de tentar entender na mente temas que só se discernem espiritualmente. Exatamente por isso a mensagem da cruz que é loucura para os que estão ainda perdidos cada dia tem cedido lugar ao pragmatismo e a métodos que visam simplesmente entreter os ouvintes. O texto sem duvida é um lúcido convite para nos voltarmos para o Espírito, aquele Espírito que Paulo disse que nos faria discernir todas as coisas.
Que a graça do Senhor Jesus esteja sobre a sua vida.

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