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O FATO, O ESPIRÍTO E O SACRAMENTO


Por:Julio Zamparetti Fernandes
Os sacramentos deveriam selar a união dos cristãos; deveria ser um sinal visível da unidade do corpo místico de Cristo. Ao invés disso, temos neles motivos de divergências e facções. Isso é um sintoma claríssimo de uma enfermidade muito séria, pois nenhum corpo é capaz de ter um bom funcionamento com seus membros dispersos, ou lutando entre si.
O problema é que fizeram do sacramento um fato em si, enquanto o fato não é outro senão a obra de Cristo.
Cristo deu sua vida em nosso favor; este é o fato. Nossa participação no corpo e sangue de Cristo se dá sacramentalmente pelo pão e o vinho e espiritualmente pela fé em Cristo e obediência aos seus mandamentos.
Nem o que é sacramental, nem o que é espiritual devem ser compreendidos como factuais. Se o sacramento fosse o fato, não haveria sentido em Paulo afirmar que se Cristo não houvesse ressuscitado, vã seria nossa fé (I Cor 15.14,17). Desta afirmativa, entendemos que a validade dos sacramentos não está em si, mas no fato de Cristo ter morrido e ressuscitado.
A Eucaristia é, então, o ato sacramental que alude e infunde a fé de que somos participantes espirituais da morte e ressurreição factual de Cristo.
É importante observarmos que a Ceia do Senhor não foi instituída como a temos hoje. Nos primórdios tratava-se de um verdadeiro banquete. Entretanto, hoje, todos concordam que seu cumprimento é satisfeito na participação de uma pequena partícula de pão molhada ao vinho. Seria ela absolutamente insignificante, diante do fato que representa, se não fosse o valor sacramental que lhe é atribuído pelo Espírito. Sendo Cristo Aquele que sacia nossa alma, seria uma discrepância servir, na Eucaristia, algo menor que um farto banquete. Mas como sacramento não é mais que um sinal visível de uma graça invisível e um meio de graça que nos une ao fato, basta-nos uma partícula para que participemos da plenitude do que Ele nos serve à sua mesa.
Quanto ao batismo não é diferente.
Logo, aqueles que exigem tamanha quantidade de água para que seja válido o batismo, cometem o delito de fazerem do sacramento o fato. Pois não é o batismo que nos regenera, nem é no batismo que somos sepultados. Na verdade, pelo sacramento do batismo somos sepultados espiritualmente na morte de Cristo, fato consumado na cruz, onde o sangue que nos redime e nos purifica foi, de fato, derramado. Conforme disse o Apóstolo São Paulo em Romanos 6.4, pelo sacramento do batismo somos sepultados espiritualmente na morte factual de Cristo.
Não somos sepultados em água, nem em terra, nem mesmo na gruta em que o próprio Cristo foi, de fato, sepultado. Somos sepultados na sua morte. Logo, o termo sepultado ganha aqui o sentido figurado de escondidos (na morte de Cristo), submersos (na morte de Cristo), esquecidos (na morte de Cristo), ocultados (na morte de Cristo), recolhidos (na morte de Cristo), ou separados do mundo (na morte de Cristo). Mas nada disso tem outro lugar de execução senão na cruz. Não é o sacramento que torna isso um fato, mas o fato (a morte de Cristo) é que faz o sinal sacramental suficiente para a efusão desta graça espiritual em nossa vida.
Não é a água que tem poder de apagar os pecados, mas sim o sangue de Cristo. Nem é o pão e o vinho que saciam nossa alma, mas sim Cristo em sua Palavra e Espírito. Logo, não será a quantidade dos elementos usados nos sacramentos que os validarão, mas sim a ação do Espírito que por eles opera. “Se esta ação do Espírito de Deus faltar, os sacramentos não poderão oferecer ao nosso espírito mais que aquilo que a luz do sol pode oferecer aos cegos, nem mais que o que uma voz altissonante pode dar a ouvidos surdos” (João Calvino). A quantidade de água num batismo pode ser importante para os hindus que conotam o fato da purificação ao poder das águas do Rio Ganges. Para eles o poder espiritual deriva do rio, para nós é derivado da cruz; para eles é o banho que os purifica, mas para nós o poder da regeneração não vem das águas... vem do alto.
Quanto ao fato, tudo foi consumado na cruz e nada mais há para se fazer, pois o sacrifício de Cristo é absolutamente suficiente. Quanto ao Espírito, é por Ele que, em Cristo, somos sepultados, submersos e esquecidos, para que pelo mesmo Espírito possamos ressurgir para uma nova vida em Cristo. Quanto aos sacramentos, não cabe ser, nem mesmo complementar o fato, mas sim proporcionar sinal visível e efusão da graça espiritual realizada por Jesus, dando-nos a certeza de que o próprio Cristo “marca com um sinal a testa dos homens que suspiram e gemem por causa de todas as abominações que se cometem” (Ezequiel 9.4) e guarda da morte os que têm “o selo de Deus sobre a fronte” (Apocalipse 9.4).
Com base nisso, não temos dúvida alguma que na aspersão ou efusão das águas batismais, nosso espírito é imerso em Cristo, da mesma forma que na ministração de um pequeno pedaço de pão, nossa alma é contemplada com o farto banquete divino.
Por fim, a presença de Cristo que nos é infundida pelos sacramentos (não que a presença de Cristo dependa dos sacramentos, mas por eles ela é selada) só é eficaz quando se manifesta na obediência aos seus mandamentos, que por sua vez se resumem no amor. Portanto, para que o sacramento seja de fato válido, deverá impreterivelmente ser uma expressão do amor de Cristo. Este amor gera compreensão, unidade, humildade, inclusividade e respeito à diversidade e a multiforme graça de Deus.
Então os sacramentos propiciarão à nossa alma algo ainda mais resplandecente do que as cores que a luz do sol irradia aos olhos de quem enxerga; algo mais harmonioso do que o som das notas musicais aos ouvidos de quem ouve.
“Quem tem ouvidos ouça”.

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